Vêde a indisposição generalizada de um enfermo e compreendei porque um yôgi é perfeito em tudo o que faz. DeRose
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O subcontinente indiano foi o berço de uma das mais antigas civilizações humanas, como as que prosperaram na América Central e do Sul, bem como ao longo dos rios Nilo, na África, Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, e Amarelo, na China.
Tendo florescido durante aproximadamente um milhão de anos desde cerca de 2700 a. C., esta antiqüíssima civilização da Índia esteve enterrada sob areia e terra até ver a luz do dia nos anos 20 do nosso século, na seqüência de escavações levadas a cabo no vale do rio Indo pela Inspeção Arqueológica da Índia, sob a direção de Sir John Marshall.
Elas seguiram-se, com um enorme atraso, à descoberta feita em 1856 por John e William Brunton, responsáveis da construção do Caminho de Ferro das Índias Orientais, de Karachi a Lahore, de grandes elevações de pó, sob as quais encontraram tijolos cozidos que podiam ser utilizados como balastro. Stuart Pigott, no seu livro A Índia Pré-Histórica, cita, do livro de memórias de John Brunton, a propósito de uma das cidades mortas em que tropeçara: "Tinha-me preocupado muito o modo como arranjaríamos balastro para a linha do caminho de ferro. Se tudo o que eu tinha ouvido fosse verdade, esta cidade arruinada, feita de tijolos, seria uma grande pedreira de balastro."
Os principais núcleos da civilização pré-ariana da Índia postos a descoberto por Marshall e o seu colega R.D.Banerji eram Harappa (no Penjabe Oriental) e Mohenjo-Daro (em Sind), atualmente ambos no Paquistão. Veio a ser conhecida por civilização do vale do Indo porque, embora fosse urbana e letrada, utilizava uma escrita que permanece até hoje por decifrar. Desconhecemos o nome por que era conhecido o seu povo.
Indo e Índia, Hindi (que significa tanto a língua como o povo que a fala), Hindu, Indostão e Sind (a província onde o Indo deságua no mar da Arábia, na costa noroeste do subcontinente) - são formas influenciadas pelo persa ou pelo inglês de Sindhu, o nome sânscrito do grande rio que nasce nos Himalaias. Durante as décadas que se seguiram, muitos outros núcleos desta civilização foram descobertos em locais tão afastados como os que, na Indiada pós-divisão, se vieram a chamar Gujarat (que compreende as ruínas de um estaleiro em Lothal), Rajasthan, Haryana, Penjabe Oriental e Jammu. Era, portanto, uma civilização que abrangia uma área muito maior do que a que indica o nome que primeiro lhe foi dado e pelo qual continua a ser conhecida. Alguns especialistas encontram semelhanças muito significativas entre os homens desta antiga civilização e as raças e a cultura dravídicas da Índia Meridional. O príncipe Pedro da Grécia, antropólogo, vê elementos sumérios nos rituais e nomes das divindades dos Todas, uma tribo ainda sobrevivente, embora em extinção, dos montes Nilgiri, do Sul da Índia.
As descobertas arqueológicas de Mohenjo-Daro e Harappa, Kalibanga (Rajasthan) e Lothal mostram uma excelente planificação urbana e um sistema de esgotos altamente desenvolvido. A maioria das construções é de tijolo cozido e compreende celeiros e banhos públicos de construção elaborada. Estatuetas de terracota mostram tecidos de belos desenhos. O algodão parece ter sido utilizado em têxteis, nesta época primitiva, apenas na Índia. Foi retirada das ruínas uma grande profusão de ornamentos de ouro, prata e pedras preciosas, recipientes de cobre batido, utensílios de metal e armas.
Havia contatos econômicos e culturais com a Suméria e a Acádia. Segundo Gordon Childe, "fabricantes das cidades do Indo até alcançavam os mercados do Tigre e Eufrates. Reciprocamente, alguns objetos de arte suméria, conjuntos de toucador da Mesopotâmia, bem como um sinete cilíndrico, eram copiados no Indo. O comércio não se limitava a matérias-primas e artigos de luxo; o peixe, importado regularmente das costas do mar Arábico, aumentava os fornecimentos alimentares de Mohenjo-Daro".
Marshall esboça um contraste interessante com as civilizações contemporâneas desta: "Nada do que conhecemos do Egito pré-histórico ou da Mesopotâmia ou de qualquer outro local da Ásia Ocidental se pode comparar com os banhos de excelente construção e as casas espaçosas dos cidadãos de Mohenjo-Daro. Nestes países empregou-se prodigamente dinheiro e preocupação na construção de templos magníficos para os deuses e de palácios e túmulos de reis, mas o resto da população teve de se contentar, aparentemente, com habitações insignificantes feitas de terra. No vale do Indo o quadro é inverso e as mais belas estruturas são as que se erguem para a comodidade dos cidadãos."
Que espécie de religião seguia este povo? Só podemos deduzi-lo a partir de sinetes (como os que revelam um touro com uma bossa), estatuetas, tabuinhas e outros artefatos. Eles sugerem que se operou uma síntese da religião desta primeira civilização com a dos Arianos, que viveram posteriormente. Além de vestígios que indicam que havia uma sanção religiosa ligada a certos animais, árvores e símbolos equívocos, existem estatuetas de terracota representando mulheres grávidas que indicam um culto da mãe ou da deusa Terra, culto esse que evoluiu para formas variadas de adoração Shaktí do hinduísmo posterior. Encontraram-se também símbolos fálicos feitos de pedra, bem como representações de um deus masculino fortemente sugestivo de Shiva, que está associado ao touro e é freqüentemente representado por um emblema de pedra de forma cônica e pontiaguda, o Linga, simbolizando a energia criadora e a ausência de forma. No hinduísmo popular atual, Shiva, a divindade não-ariana, e Vishnu, a divindade solar ariana, juntamente com Shaktí, ocupam lugar de destaque no panteão dos inumeráveis deuses e deusas que são adorados.
Estas ligações levaram Marshall a comentar: "Na religião do povo do Indo existe muito, evidentemente, que encontra paralelo noutros países. Isto é verdade para todas as religiões pré-históricas, assim como para a maioria das religiões históricas. Mas, vista no seu todo, a sua religião é tão caracteristicamente indiana que dificilmente se distingue do hinduísmo hoje praticado."
Rodeado em três dos seus lados pelo oceano e ao norte pela cordilheira dos Himalaias, o subcontinente indiano é uma entidade geográfica distinta cujos habitantes desenvolveram ao longo dos séculos um etos sincretista. A síntese dos elementos arianos e não-arianos foi a primeira manifestação da capacidade assimiladora do modo de viver indiano. Este foi influenciado, influenciou e absorveu no seu interior vagas sucessivas de elementos estrangeiros - helênicos, árabes, persas e europeus, para só mencionar os mais importantes - trazidos pelos que entraram como refugiados ou mercadores, missionários ou conquistadores. Abarcando cerca de cinco milhares de anos, a história da Índia é a história de uma mistura de uma grande variedade de raças e religiões, línguas e artes, num etos que tem sido caracteristicamente indiano.
Nas palavras de Jawaharlal Nehru em A Descoberta da Índia: "As influências estrangeiras entraram às torrentes e muitas vezes influenciaram essa cultura e foram absorvidas. Tendências disruptivas deram imediatamente origem a uma tentativa de encontrar uma síntese. Certa espécie de sonho de unidade tem ocupado o espírito da Índia desde o despontar da civilização. Essa unidade não foi concebida como algo imposto do exterior, uma uniformização de aparências ou mesmo de crenças. Foi qualquer coisa de mais profundo, e consigo trouxe a maior tolerância de crenças e de costumes, sendo todas as variedades reconhecidas e até encorajadas."
Extraído do livro A Índia, de RAGHAVAN, G.N.S. Pág. 9. Publicações Dom Quixote. Lisboa. 1984.